Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Continuação das Entrevistas

5

Sugestões de como enquadrar esta prática no âmbito da Cultura Urbana:

Natacha Fontinha

Quando vamos ver uma exposição de arte temos que estar fechados numa galeria (o que eu aprecio), mas muitas vezes estamos a lidar com pessoas que estão ali para ver e ser vistas; enquanto que um corpo tatuado que passeia na rua é uma tela viva e é perfeitamente agradável aos olhos das pessoas.

Cristian Barcelos

Acho que o que se trata aqui tem mais a ver com cultura individual do que cultura urbana.

David Marques

O piercing já está completamente enquadrado na cultura urbana. Tens desde pessoas do mais alto estatuto ao mais baixo estatuto. Em todos os estatutos existem pessoas com piercing, e o que difere é o tipo utilizado. Por exemplo, a uma executiva é-lhe permitido usar um muito pequeno no nariz ou no umbigo, mas talvez outros piercings não se enquadrem tão bem. É muito usual andarmos na rua e vermos bastantes pessoas com piercing, nem que seja um só, do mais normal ao mais invulgar.

Carlos Amorim

Antigamente a tatuagem fazia parte de uma cultura mais “ilegal”. Hoje em dia ela existe em todas as culturas.

Samuel Ávila

Eu acho que já não é uma moda. É algo que já está mesmo imposto na cultura. Antigamente pensava-se que era uma moda, mas já não.

 

6

Motivações que levam à adesão (através da experiência do entrevistado):

Natacha Fontinha

Eu acho que são motivos pessoais e é algo que não gostaria de falar, mas cada pessoa adere por diversos motivos, nem que seja o mais fútil, porque os há.

Cristian Barcelos

Acho que é para embelezar o corpo. Para mim uma tatuagem tem que ficar sensual, seja num homem ou numa mulher. O corpo é a coisa mais bonita que nós temos e o que eu faço é acrescentar ainda mais beleza ao corpo, com algo que nos represente.

David Marques

A maioria? A identificação com o meio, o enquadramento num certo grupo ou sub-grupo. Querem-se enquadrar, querem ser parecidas com algumas pessoas e fazem-no para que a sua estética se assemelhe. É mau, porque limitam-se a que a sua estética se enquadre com a das pessoas a quem se querem parecer ou a quem querer ser identificadas.

Carlos Amorim

Posso apenas dizer que eu sou procurado pelo tipo de trabalho que faço, tanto a qualidade como o estilo (oriental).

Samuel Ávila

Uns porque é moda, outros por prazer, o visual, a experiência. Há vários motivos para isso. Aqueles que o fazem por prazer fazem-no, tiram, voltam a fazer. Há todos os tipos de motivos.

 

7

Ponto de vista sobre a opinião da população, em termos gerais, sobre estas práticas:

Natacha Fontinha

Eu acho que é positiva. Nós somos um país do sul da Europa, de regime católico e isso tem um grande peso, porque faz os países de sul mais conservadores, mas dentro destes até somos um país que aderiu muito bem e que está a desmistificar essa ideia de que a tatuagem é coisa de presidiário.

Cristian Barcelos

Se fores a uma aldeia e tiveres 60% do corpo tatuado vão olhar-te de lado, mas em Lisboa, que tem uma grande população, uma pessoa com uma tatuagem é só mais uma pessoa tatuada. Agora se for eu, já podem olhar de forma um pouco diferente. O tabu que havia acerca de serem criminosos a fazer tatuagens já desapareceu um pouco, até porque o nível artístico aumentou.

David Marques

Temos piercings que são aceites e temos piercings que não são. Posso até dar um exemplo pessoal: já tive imensas discussões com pessoas no Metro ou na rua, porque, por exemplo, alguém com um piercing no sobrolho olha para o meu no septo e diz: “ai que nojo, que horror.”. Qual é a diferença? Não há. É um piercing. É uma perfuração do corpo; é a mesma coisa, só muda o local.

Carlos Amorim

Depende da faixa etária. Há idades que aceitam bem, outras não. Aqui em Lisboa a mentalidade está um pouco mais aberta porque há muitos jovens.

Samuel Ávila

Hoje em dia está um bocadinho melhor: já há lojas e imensas pessoas com piercings. As pessoas já se estão a mentalizar.

 

8

Existem ou não algo que vise modificar a opinião pública (caso esta seja negativa):

Natacha Fontinha

Há muita falta de informação e o negativismo e a critica má vão existir sempre, seja em que sociedade for; enquanto o Homem for Homem haverá sempre pessoas que vão criticar a tatuagem, ou porque não têm coragem para fazer ou porque a família não gosta. Viver em sociedade é sempre um acto difícil.

Cristian Barcelos

A pessoa negativa vai ser negativa sempre… ou porque não quer assumir um certo valor ou por outra razão qualquer… Há quem não goste, mas eu acho que só porque não se gosta não se deve falar mal. Pelo contrário, eu conheço pessoas que gostam de tatuagens, mas não as fariam porque não iam gostar de as “carregar” consigo para sempre, e gostam de as ver nos outros. Também há o tipo de pessoas que faz uma tatuagem, nem que seja muito pequena, só porque os outros têm. É algo que é nosso: é a nossa pele, a única que temos na vida. Devemos fazê-lo porque queremos, não porque outra pessoa tem. Nos somos conscientes do que fazemos com a nossa vida e por isso também não tatuo as mãos: nem todos podem trabalhar em qualquer parte do mundo tendo as mãos tatuadas; pode até ser um pai de família, mas a sociedade não está assim tão avançada. Eu prefiro fazer a tatuagem num sítio que não complique a vida da pessoa. Se alguém sob o efeito de drogas ou álcool vier ter comigo eu não o faço. E também depende da tatuagem que é: se faltar ao respeito a outra cultura ou outra nacionalidade não o faço. Só faço coisas de que me orgulho.

David Marques

O confronto. Karl Marx dizia no seu manifesto que sem confronto não há evolução. Há pessoas que têm que ser sacrificadas: eu não me importo de andar na rua e ser gozado para que no futuro um filho meu possa usar tantos piercings como eu e trabalhar num banco. Não me faz confusão, vivo perfeitamente bem com isso; não me importa. Eu vejo uma senhora na rua com um fato horrível e ela olha para mim e diz “ai que horror!”… eu podia dizer o mesmo da roupa dela. Trata-se de gostos.

Carlos Amorim

Acho que a opinião pública vai sempre evoluir de forma positiva, nunca negativa, mesmo para os media.

Samuel Ávila

Vai existir sempre o contra, devido à falta de informação. Acho que até hoje tudo o que disseram de negativo não foi bem fundamentado ou provado.

 

9

Influencia que poderá ter no futuro das cidades portuguesas:

Natacha Fontinha

Eu acho que já tem. Acho que faz parte. Tu vais à praia e raramente não vês um corpo tatuado.

Cristian Barcelos

Eu acho que agora o povo português, seja lisboeta, do porto ou do Algarve, está a ser influenciado por ver pessoas com tatuagens. Por isso perdem o medo, até porque antes as pessoas que faziam tatuagens eram criminosos ou pessoas más.

David Marques

Tendo em conta toda a historia, e sendo um fenómeno cíclico, vamos começar a ver menos pessoas extremamente furadas, para haver pessoas apenas com um. Imaginemos: em cem pessoas vamos começar a ver 20 pessoas extremamente furadas e 80 só com um piercing.

Carlos Amorim

Samuel Ávila

Acompanhando a moda dos outros países, a publicidade, que até já aparece muito relacionada com isso.

by saloiadas às 01:15
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